Criei o Fonte porque cansei de ver ferramentas que tratam roteirista como produto, não como usuário. Não é sobre falta de opção no mercado — é sobre o modelo por trás delas.
O cenário que me levou a isso
O mercado de ferramentas para roteiristas tem um padrão: ou você paga uma assinatura que só aumenta, ou usa um software “gratuito” que retém seus arquivos em formato proprietário. Em ambos os casos, quem escreve o roteiro não controla o destino dele.
Uma pesquisa conduzida por Opara-Martins, Sahandi e Tian (2016) no Journal of Cloud Computing identificou a falta de formatos abertos como o fator central que gera dependência de fornecedor — e mostrou que a maioria dos usuários subestima esse risco até o momento em que precisa migrar.[1] No universo da escrita de roteiros, isso é ainda mais grave: o arquivo do roteiro é o ativo principal do projeto. Perder acesso a ele porque a ferramenta mudou o modelo de negócio não é apenas um aborrecimento — é um risco real para a produção.
O que chamam de “nuvem” é, muitas vezes, a transferência do controle dos seus arquivos para um servidor que você não administra. Yanis Varoufakis, em seu livro Technofeudalism: What Killed Capitalism, descreve como plataformas digitais extraem valor não apenas do que você compra, mas do que você produz — inclusive seu trabalho criativo.[2] Não é coincidência que o custo de ferramentas de roteiro tenha subido enquanto a qualidade dos formatos abertos tenha sido ignorada.
Por que Fountain
O formato Fountain é texto puro. Você abre com qualquer editor — Bloco de Notas, Vim, VS Code, o que tiver. Nenhuma empresa é dona dele. Se o Fonte deixar de existir amanhã, seus roteiros continuam funcionando, legíveis, exportáveis para qualquer outro editor compatível — Fade In, Highland, Slugline, WriterDuet, Trelby, Scrivener, Storyist.
Quando decidi construir um editor, a escolha do formato foi a mais fácil: Fountain não é só um padrão aberto — é o padrão que a comunidade de roteiristas independentes já usa. Não precisei inventar nada.
O nome “Fonte”
O app se chamava Fountain Writer. Um nome correto, mas em inglês. E, honestamente, genérico. Troquei para Fonte — que é a tradução direta, mas também carrega o significado de origem, de nascente, de onde a escrita jorra. É brasileiro, diz o que é, e não esconde que foi feito aqui. Por e para roteiristas que produzem em português.
Autonomia do criador independente
Foram dois os públicos que motivaram a criação do Fonte. O primeiro sou eu mesmo: precisei de uma ferramenta leve, offline, sem frescura, que me deixasse escrever roteiros em qualquer lugar — no notebook, no celular, num computador que não é meu. O segundo são os produtores culturais, roteiristas solo e estudantes de cinema que não têm orçamento para ferramentas de US$ 80 por ano, mas têm todo o direito de escrever com qualidade profissional.
Foi por eles que adicionei o módulo Projeto Cultural: uma segunda interface completa para elaborar propostas para leis de incentivo como LIC-RJ, Lei Rouanet e editais municipais. São 10 seções — dados do proponente, equipe, orçamento detalhado com total automático, cronograma de execução em grid clicável de 12 meses, plano de distribuição, especificações técnicas. Tudo exportável em PDF. Porque não adianta ter o roteiro pronto se você não consegue viabilizar a produção.
O avesso do tecnofeudalismo
Enquanto plataformas fechadas competem para ver quem retém mais dados do usuário, o Fonte faz o oposto: não tem cadastro, não tem telemetria, não tem nuvem. Seus arquivos estão no seu dispositivo. O código é aberto. Você pode auditar, modificar, distribuir.
O estudo de Feretzakis et al. (2024) na revista Information (MDPI) detalha os riscos de privacidade em sistemas de IA generativa — memorização de dados de treino, vazamento durante fine-tuning, ataques de inferência.[3] O mesmo princípio se aplica a qualquer plataforma que processa seus arquivos em servidores que você não controla. No Fonte, zero dados saem do seu dispositivo. Não porque é impossível conectar uma API — mas porque a decisão de enviar ou não seus arquivos para terceiros deve ser sempre sua.
Como o Fonte se conecta ao meu pipeline
O Fonte foi construído com as mesmas ferramentas que uso no meu pipeline de animação: Blender para os gráficos, Krita para edição de imagens, Inkscape para vetores, rodando em Debian. Código em HTML, CSS e JavaScript puro — sem framework, sem dependência externa, sem telemetria.
O projeto completo está no GitHub, licenciado como código aberto. Se você é desenvolvedor e roteirista, pode contribuir. Se você é só roteirista, pode usar sem precisar saber o que é um repositório.
Para quem é o Fonte
Roteiristas que querem escrever no formato Fountain sem complicação. Produtores culturais que precisam estruturar projetos para leis de incentivo. Estudantes de cinema que buscam uma ferramenta gratuita e funcional. Equipes criativas que querem uma solução leve para compartilhar roteiros.
Perguntas frequentes
O Fonte é realmente gratuito? Sem pegadinha?
Sim. Não tem plano premium, não tem anúncio, não tem cadastro, não tem limite de projetos. Baixe, extraia e use. É código aberto — se um dia eu resolver cobrar, qualquer um pode pegar o código e continuar.
Posso usar os roteiros comercialmente?
Sim. O Fonte não impõe nenhuma restrição sobre o que você escreve ou publica. Seus roteiros são seus.
O que acontece com meus dados?
Nada. Eles ficam salvos no seu navegador (localStorage) ou no arquivo .fountain que você baixou. Nenhum dado sai do seu dispositivo. Não há servidor, não há telemetria, não há coleta.
Fountain é difícil de aprender?
Não. Fountain é texto puro com regras simples: INT. SALA — DIA vira slugline, nome em CAIXA ALTA vira personagem, diálogo abaixo vira fala. Você aprende em 5 minutos. O Fonte renderiza tudo automaticamente.
Vai ter versão paga no futuro?
Não. O Fonte é e continuará sendo gratuito e de código aberto. Se o projeto te ajuda, você pode apoiar com uma doação via PayPal ou Pix — mas nunca será obrigatório.
Por que criar com software livre
Construir o Fonte com software livre não é uma escolha técnica — é uma extensão do que o próprio aplicativo defende. Da mesma forma que o Fonte não prende seus roteiros em formato proprietário, as ferramentas que usei para criá-lo também não me prendem. O resultado é um editor que não deve nada a ninguém.
Se você está estruturando um projeto audiovisual, use o Gerador de Briefing que criei — são perguntas guiadas que organizam os pontos de partida. E para estimar o orçamento, tem a Calculadora de Orçamento.
O Fonte está disponível em ricolandia.com/editor-roteiros-gratuito/. Baixe, teste, escreva.
— Ricardo A. B. Graça · ricolandia.com
Referências
- Opara-Martins, J.; Sahandi, R.; Tian, F. (2016) Critical analysis of vendor lock-in and its impact on cloud computing migration: a business perspective. Journal of Cloud Computing, 5(4). Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1186/s13677-016-0054-z
- Varoufakis, Y. (2023) Technofeudalism: What Killed Capitalism. Melville House. Disponível em: https://www.penguinrandomhouse.com/books/741927/technofeudalism-by-yanis-varoufakis/
- Feretzakis, G.; Papaspyridis, K.; Gkoulalas-Divanis, A.; Verykios, V. S. (2024) Privacy-Preserving Techniques in Generative AI and Large Language Models: A Narrative Review. Information, 15(11), 697. Disponível em: https://www.mdpi.com/2078-2489/15/11/697