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Portfólio de Ricardo Alexandre B. Graça

Apr-28-2007

( conto ) Meu Julgamento

Meu Julgamento

07/04 – O começo do meu fim.

Cá estou hoje, feliz por escrever pela primeira vez depois do acontecido. A minha nova postura diante dos fatos permite que eu escreva com muita clareza e desimpedimento. Um ato de compaixão, talvez. Relatar os meus propósitos e me colocar ao seu julgamento é um ato altruísta. A contribuição é para com você, leitor. Eu já atingi o degrau almejado. Vou começar do início, mas não do início da minha história; vou começar do início deste fim em que me encontro. Primeiramente, gostaria de me desculpar, não pelos meus atos ou decisões, mas pelas atitudes que não consegui explicar. Bem… Eu matei um homem. É isso. Exterminei, expurguei esse homem da face da Terra, e o fiz com muito orgulho. Não por emoção ou ímpeto de violência, executei-o premeditadamente; esse é o motivo da minha reclusão. Eu decidi, ao começar a escrever este diário, colocar a mim na posição de réu; e a você, caro leitor, como o juiz e carrasco de minha pessoa. Não que eu já não esteja sendo julgado por você, mas o porquê da sua sentença, você mesmo não sabe. Sei que com essas poucas linhas escritas, você me julga preconceituosamente. Um monstro? Frio? Maquiavélico? Antes de qualquer julgamento, pergunte-se sobre quem é você para julgar-me de algo. Você faz parte do senso comum, débil e falsamente feliz, que debruça sua felicidade em conquistas supérfluas e fúteis. Como pode você me julgar? E agora? Piorei sua opinião a meu respeito? O valor desta sua opinião é pré-concebida, encare isso! E não é pré-concebida por sua reflexão consciente, foi imposta a você. Como pode pensar que os valores morais e éticos que o fazem julgar certo e errado são absolutos?! Essa sua percepção limitada sobre as coisas, os valores, é que me fazem debochar de você agora. Continue lendo, se assim desejar; mas se tiver medo, ou raiva, ou qualquer outra fagulha emocional que o faça se afastar deste texto, faça-o! Eu espero isso dos covardes, fracos e medíocres.

09/04 – O porquê

Eu o admirava. Via-o todos os dias, do acordar ao repousar; Ele, orgulhoso do que era como Ser, como Homem. O otimismo, a perseverança e a ambição o coloriam, mas isso ainda não o destacava do restante dos homens; pelo contrário, o colocava na mesma prateleira de varejo. Ele tinha sua percepção para mundo aniquilada, superficial; porém expelia lampejos de sobriedade, derivados de sua busca por conhecimento e cultura. Ele cresceu em uma realidade pobre, em uma família de costumes rijos, que acreditava na premiação pelo merecimento. Contudo, era incentivado à leitura e liberdade de escolha, inclusive religiosa. Era sereno, humilde, simpático, inteligente, cortês, bondoso e honesto: uma de suas mais admiráveis características. Possuía uma qualidade especial, desenvolvida em poucos homens: ele sabia como as coisas funcionavam. Mas por que eu o mataria? Era trabalhador, o rapaz! Não é ao trabalho que se associa a dignidade, o merecimento,o caráter? Ele desejava todas as vitrines que o mundo lhe oferecia, mesmo sabendo que isso custaria sua redenção ao modelo medíocre. Isso me incomodava! Como poderia, um homem com tanto potencial, se deixar reduzir à mediocridade. Inadmissível; e foi em uma manhã, ao admirá-lo como nunca antes, que tomei a decisão. Não foi rápido nem sem dor: foi lento, traumático e doloroso. Ele era o único homem que eu conhecia capaz de mudar algo; possuía o conhecimento e a coragem para acender a luz da verdade para que os outros homens pudessem perceber os seus arredores. Ele sabia de todo esse potencial e mesmo assim, aniquilava esse poder em troca da migalha que o sistema social o oferecia.Hipócrita. Seria justo permitir esse desperdício? Um traidor, foi como o vi. Ele precisava morrer para que eu pudesse viver sem medo. Essa ameaça me preocupava, me trazia angústia e apego ao seu mundo. Eu o amava. Já você, que me provoca enjôo, desprezo.

10/04 – A execução

No espelho, se admirou pela última vez naquela manhã. Eu o observei, não mais como observava antes; senti seu desespero, sua aflição, angústia, paralisia, medo, perplexidade, era o momento certo. Pobre caça. Ataquei ferozmente. Golpeei repetidamente, desfigurando e mutilando o inerte ser que admirei um dia. O sussurro do Pânico, ao pé do ouvido, me colocou a correr em círculos e nesse breve instante me senti perdido. Logo minha boca sorriu, depois vieram euforia, alívio, vitória. A vítima poderia ser você. Será? Ele era especial. Já você; não sei! Não se engane achando que sua erudição acadêmica o faz especial. Isso não o torna melhor do que os outros. Essa erudição é para torná-lo um bom técnico para o mercado de trabalho, de consumo. Seu título de mestrado, PHD, pós-graduação, nada o melhorou como homem; transformou-o em mais uma ferramenta para o mercado, pronta a ser descartada pela mais preparada, a mais nova. Pobre de você! Fantoche do sistema! E não adianta se ofender! Você é nada. Desça do seu pedestal imaginário e coloque-se como é! Curvo, rastejante, débil, um produto. Eu juro!Vou parar de molestá-lo, a fim de que não se desinteresse pelo meu diário. Desculpe-me. Não que o pedido de desculpas seja honesto, apenas quero que continue lendo.

11/04 – Considerações

Eu dizia que começaria deste fim, certo? Pois bem, esta é a minha nova realidade, meu novo mundo. Estou vivo, mais vivo do que antes; pois percebo melhor a vida, as emoções, as sensações, e nem mesmo precisei buscar nos paraísos artificiais o caminho para tal acerto. Esse posicionamento racional e cristalino a respeito de tudo o que me cerca, coloca-me, desculpe a franqueza, em um patamar acima do que talvez você possa compreender agora, mas eu te perdôo por isso. Não espero a sua compreensão, espero que leia a obra e me julgue friamente como faço contigo agora. Quero deixar claro: Eu respeito todo o mundo e todas as coisas que nele caminham em duas patas, só não respeito os bípedes que tratam os quadrúpedes como bípedes ou tentam se comunicar com eles se utilizando de seu código lingüístico elaborado. Também não respeito os bípedes que se utilizam de código lingüístico elaborado e tratam seus utilitários como partes importantes de seu ser. Não podia me esquecer de mencionar os bípedes que se utilizam do tal código elaborado que não entendem o que quero dizer. Estes, com toda certeza, eu não respeito.

12/04 – O dia da decisão

Dias difíceis, os últimos. A Solidão e o Medo me trouxeram a Angústia depois de ter escrito as primeiras linhas deste diário. Chorei. Tenho fraquezas. Mas não me compare a você. As erupções na pele, resultado de um efeito psicossomático, a abstinência do cotidiano, do contato físico, do discurso retórico, e a lembrança do que poderia ter acontecido naquele dia se eu tivesse desistido; todos esses acontecimentos haviam me enfraquecido um pouco. Mas hoje acordei mais forte do que antes e pronto para me defrontar com as próximas linhas do texto. Mas voltemos ao tema inicial. Eu era como você, já escrevi isso? Era controlado pelo ritmo empregado pelo sistema, cruel e cínico. Houve um dia muito especial deste meu passado, o dia que decidi assassiná-lo. Havia acordado muito cansado e preocupado com o meu dia de trabalho. Eu me preocupava. Seria um dia sofrível, pois teria que participar de três reuniões onde seriam decididas as comissões de vários profissionais da empresa. Eu nunca me sentia à vontade com esse assunto. Eram comissões de colegas e me preocupava com eles. Eram pais de família, homens e mulheres com responsabilidades, sensíveis. Eles acreditavam na minha pessoa, me creditavam um grande homem, herói; quem diria? Eu temia a decepção dos meus colegas para comigo; a empresa sabia disso e era esse o motivo para me convidar a participar das reuniões. É assim que funciona, não é mesmo? A sordidez da máquina trabalhando, para manter-se funcionado é inacreditável se contada e não vivida. Nesse dia de reunião, tive a certeza do que devia fazer. Eu observei toda a crueldade e malícia nas resoluções, os caminhos tortos para eliminar benefícios, a covardia de se aproveitar da necessidade, da dependência. Eu estava cansado disso. Seria mais fácil aceitar, esquecer, ignorar, me aproveitar; mas eu me sentia responsável. Não podia compactuar com os diretores. Aliás, os diretores não estão nesta posição por capacidade intelectual, estão por serem instrumentos perfeitos a serem manipulados pela empresa, seguem as ordens fielmente e são capazes de ferir qualquer companheiro para se manter nessa posição. Pobres marionetes. Todos os acontecimentos deste dia me traziam sempre o mesmo desejo: acabar com ele. Não era o estresse do dia que trazia o incômodo, era a existência daquele trôpego bípede. Ele era culpado de tudo. Minha angústia e meu sofrimento acabariam com seu fim.

13/04 – A revelação

Não foi um assassinato físico, não o exterminei biologicamente. Eu assassinei os valores, a moralidade, a ética e a inércia que me colocavam na posição do comum, do medíocre, do egoísta e do individualista. Em resumo, eu matei o homem que todos os outros homens são. Eu matei todo o mundo. Matei você! Mas não podia simplesmente fazê-lo sem relatar os fatos, saborear a sua perplexidade, imaginar essa sua cara de negação ao meu texto e documentar para colaborar com seu amadurecimento.

Ricardo Alexandre Graça
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  1. Denise_UCB Said,

    Olha, ao ler o primeiro conto “Meu Julgamento” estava ficando até com medo de vc. rsrsrsrsrs É impactante!

    Que negócio é esse de “Já você, que me provoca enjôo, desprezo.”!? rsrsrsrsrs

    É verdade. Analisando bem, falta-nos muita das vezes essa coragem de expurgar-nos!

  2. Denise_UCB Said,

    Achei linndo os contos!

    Vc é fera mesmo!!!!

    Parabéns!!!!!

    Denise_UCB

    P.S.”Não importa o quão devagar você vá, desde que você não pare.”

  3. Renata Said,

    O Homem é do tamanho do seu sonho.
    Fernando Pessoa

  4. Pedro Rebello Said,

    Ae Ricardo…li o conto. Bem interessante, idéias bem legais e bem desenvolvidas, e muito maneira a idéia final.

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