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Portfólio de Ricardo Alexandre B. Graça

Apr-28-2007

( conto ) De comer e de deitar

De comer e de deitar

Ceifa, tira, sua; ceifa, tira, sua; ceifa, ceifa. Sua.
O sol braseiro fere os olhos, aferventa a carne e murcha os rostos rapidamente. Emanuel, mestiço de índio e mulata, com seus vinte e três anos de vida, simula quarenta na carcaça. O trabalho no canavial, as toneladas a serem cumpridas, pasta de carne, alojamento de redes; dívida eterna com o patrão. Capataz apita intervalo de almoço. Emanuel caminha com os outros para o descampado, retira o chapéu, o lenço do rosto, as luvas, se senta no chão úmido e observa os detalhes daquele ritual diário. Homens, mulheres, crianças, todos trabalhadores do canavial. A lembrança de quando menino o faz se lamentar da vida naquele trabalho. “Que futuro há para mim e meus irmãos, a não ser sofrer de trabalhar para pagar o de comer e de deitar? Que futuro há? Vi os velhos se indo embora, os moços ficando velhos e os meninos, como eu fui, ficando moços-velhos. Que raça somos nós, filhos de índios com negros-de-brancos, que com o tempo perdeu o linguajar? E a quem questionar, choramingar ou solicitar; quem poderia ajudar ou pelo menos se importar, pelo mínimo que seja , com o de comer e deitar?”

Emanuel aprendera a ler na escola da fazenda, de dois anos para cá, desde que os netos do patrão adoeceram e não podiam se andar. Desde então continuou lendo tudo quanto fosse possível de ser lido. Suas idéias principiavam nascer, seu desejo por viver sussurrava ao pé do ouvido, o brilho no olhar até então desconhecido começava a se esboçar. Com os olhos cata seu irmão, Dorico, cuja voz não é por ele ouvida há tempo; apenas seu semblante rijo e os olhos errantes podem ser deparados no meio de todos, apagado, quase sombra. Dorico era a última raiz da sua família e embora ainda vivo e visto, não se podia achar. Assim eram todos ali. Olhos desencontrados, vozes desconhecidas e gemidos ao trabalhar. Só se ouvia alguma voz quando algum pendia o corpo ao chão, de morte morrida ou de morte matada por alguma cobra vizinha do canavial. A pasta de carne já não denotava sabor ao paladar viciado; a água morna, de cor barro, descia macia e saborosa do prazer em saciar, não em saborear. O canavial cresce sem parar e outros trabalhadores vêm de lugares mediatos, no princípio falantes e depois gemedores como os demais. A inquietação do mestiço de índio o leva a tratar com seu irmão, que está com febre desde dois dias passados. “Dorico? Preciso lhe falar.” silêncio. “Dorico, preciso saber como está, se pode prosear.”

Capataz apita o fim do almoço, reinício do trabalho. Emanuel deixa Dorico, cabisbaixo.
Ceifa, tira, sua; ceifa, pensa, ceifa, pensa pensa pensa, tira… Escravos, é no que Emanuel pensa. Nada mudara desde o começo da história de Pindorama. Índios e negros, ilhas sociais e escravidão, descaso e exclusão. Morte. Antes, colonização; agora, neocolonialização, televisão e alienação. Explorar e dominar agora são diferentes, mas a América Latina, rica e mutilada, sempre saqueada, não tem esperança, pois até mesmo seus viventes concordam e saboreiam a sua dominação. Acreditam no estrangeiro, desejam ser um deles; nada melhor ao dominador que ver o dominado desejar ser seu semelhante, sabendo que este nunca o será. Perfeita essa fórmula, dividir para conquistar, fazer acreditar que o dominado é dominante e o que se opõe é subversivo; podendo este prejudicar o prosperar. Perfeito. Imundo. Tudo agora se apóia em uma palavra: Democracia, mas esta tem um preço muito baixo a se comprar. Neste grande universo de exploração, jaz este canavial, como tantos outros nesta mesma situação. O absurdo é que existe lei, mas para os que podem pagar.

Até quando esperar como os outros, que à noite, mesmo agotados, de carnes magoadas, encontram vigor para rezar. Pedem e esperam desde seus remotos antepassados pelo conforto das suas almas, já que os corpos mirram lentamente e não têm como salvar. Como sanar suas dores, resgatar seus valores e tirá-los do modo-bicho de viver, sem ter que trazer de sofrer para todos, sem preço a pagar por se libertar dos dissabores. Pensa ele, que mesmo certeiro seu desejo, somente dor traria para os outros companheiros, se creditasse mais e mais essa esperança em mudar o curso das coisas. Mas preço já pagam por existir sem chance de escolher em qual berço germinar. Se não houver brusca ruptura no modo de cursar os destinos, nada mudará e outras gerações virão a sofrer, aguardando esperança no divino, comendo sem prazer na comida, sofrendo para continuar a sofrer, seguindo sem vida o destino que lhes é servido em sorriso e que não conseguem enxergar; que para mudar, é preciso renegar à condição de ovelha e se tornar predador desalmado, amargo.

Que o verbo é importante ele sabe, mas com tais homens covardes, que os controlam como animais inferiores, só traria silêncio às suas idéias e lição, mártir se tornaria; com o tempo desapareceria sua história de toda e qualquer memória. Outros deles já tentaram fugir, mas sós, desapareceram no canavial ao som dos caninos e dos tiros, sem nem mesmo terem enterro, exalando seu odor podre por semanas, no regaço do canavial. “Eu juro que em memória de meu pai, minha mãe, meus irmãos e primos, mudarei os destinos dos homens do canavial.”
O sol se vai. Capataz apita e os homens marcham para o repouso com a bela sinfonia de fim de dia: gemidos brandos, pés arrastados, tosses secas, suspiros. Emanuel está ali, anônimo como o um, mas célula do grande órgão de gemedores. banho de balde, feridas cobertas, café com o pão submerso, a reza começa.

Emanuel, inquieto, catuca um a um tentando falar. É ignoto pelos crescidos e velhos, as crianças de cabeça enterrada, em respeito à reza. “Dorico!” - busca Dorico dentre os outros, mas a ladainha-do-vai-vem não o deixa catar. Ladainha-do-vai-vem, ladainha-do-vai-vem, ladainha-do-vai-vem, começa a nausear pois até o chão parece ondular de vai-vem como os demais. Não há palavra expelida pelos senhores presentes, há gemido de boca cerrada, olhos e palmas ao alto, odor azedo e ácido, escuridão crescendo… Emanuel pende ao chão.
Alvorece. Capataz apita o início do trabalho. Emanuel acorda e salta da rede, assim como os outros faz caminho para o cerne no canavial.

Ceifa, ceifa, ceifa, ceifa, chora, sua, mistura dor e fúria no Imo peito que agora aperta o medo e resgata o voraz do animal com fome, ferido, sozinho. Com a cabeça a rodopiar no quase sonhar, delira sobre como a fazenda tomar. Ele, vestido de morte mitológica, o Cronos, senhor do tempo e destino, varrendo a ceifar as cabeças dos empregados armados, os donos do lar, e no fogo reduzindo as casas da fazenda. Não seria vingança, seria pagamento por todo sofrimento de vidas inteiras morrendo devagar. “Morte! Morte!” - Grita a volver a foice da morte em punho, em um grande monte com os outros no seu rodear. Gigante e robusto, se viu liderar os homens, como o herói Semi-Deus que nascera para salvar os destinos do povo sofredor. Imortal, indestrutível, invencível… Abrir caminho na cana até a liberdade alcançar, prover um novo destino aos montes de gente a segui-lo. Esse, enfim, era o seu destino de homem-messias do canavial. Ao fim do delírio, o voraz animal, ferido, decide realmente falar.

Ergue o facão, retira o lenço, o chapéu. “Chega! Precisamos mudar o destino, tomar a fazenda e afinco, gritar para sermos ouvidos, criar alarido e contar para o resto do mundo que somos mais que reles boçais; somos homens, mulheres, joviais, que temos desejos, sonhos escondidos e muito mais a doar que meros gemidos e suor do trabalhar; podemos sorrir e cantar, saltar e dançar, e conviver em igual com todos que no munho há.”

Os trabalhadores não param de trabalhar, não se movem diferente ou ressoam resposta acertada ao jovem de índio. “Estão todos surdos? Cegos?! Não me ouvem bramar? Somos mais do que isso, somos vida e desejo, e unidos rochedo, que sistema algum pode quebrar.” - Capataz se move andeiro rastejante, sorrateiro, pelo canavial. O jovem de índio continua a gritar: “Não podemos continuar! Precisamos lutar!” - e antes do matreiro capataz se chegar, os outros homens, galhos de índios-de-negros o agarram e o fazem calar. De início, reluta brutal e persistente, mas contra muitos, todos, força alguma pode vencer. Colocam-no a trabalhar novamente, de lenço, chapéu e facão, sem titubear. Agora, todos iguais, em uníssono no ceifa, tira, sua; ceifa, tira, sua; ceifa, ceifa, tira, sua; engambelando o capataz.
Emanuel, assustado demais para falar, trabalha no ritmo uno. Ainda de lágrimas nos olhos e de sangues presos ao longo do corpo, se pergunta o que há de passar.

Assim foi o dia de todo, em silêncio, trabalhoso e doloso. No deitar da noite, após a ladainha habitual do-vai-vem, o capataz, Benício de nome, invade acompanhado de doze homens mais: Ranha-pau, Sagú, Timóteo, João tum-tum, Dimóstenes, Zequel, Maninho, Zé-péla, Caberigão, Waltinho, Lileu e Guará (todos também acompanhados das armas de balas-de-voar), o alojamento dos homens cansados, rasgados, rezados. Empurrando os velhos, mulheres e os demais, até Emanuel se chegarem. Eles sabiam que era ele o gritador do canavial, a desarmonia do todo trabalhar. Em ódio no rosto e no respirar, o Benício dá-lhe a gritar: “Vem pra fora comigo, bicho mole e gritador, que tua hora é agora, para suas idéias calar.”

Os homens cercam caminho para o capataz arrastar, com gozo no rosto, pelos cabelos, o jovem de índio, Emanuel, a chorar. Mas, ao arco da porta chegar, um salto de grito desfere um facão, a mão do capataz no chão a sangrar e os rostos dos doze homens de armas de fogo se exclamam a gritar. É Dorico, ávido e ladino que de facão na mão se posta no fronte a desafiar: “Se vão todos os doze agora, que aqui nos resolvemos nós com o jovem, meu irmão. Mas, se houver outro homem de arma que pensa que pode aprumar, pense bem no destino que posso lhe dar; sou Dorico, filho de índio-de-negro, quem comanda o fazer da morte neste lugar.” Depois de se olharem, os doze homens vão-se embora, levando o Benício a gemer e gralhar. Dorico se torna a Emanuel e dá-lhe a dizer: “Se pensa que pode ir se embora deste lugar, chegou sua hora, homem algum há de impedir o seu afastar; mas tenha certeza do que faz, pois para o desconhecido te vais. Não nos julgue tolos ou débeis, é que para o nada não há como andar; entre o nada e o aqui, morreremos todos sabendo nosso lugar. Mesmo que em algum centro se chegue ao partir, neste, os homens não gostam de repartir o pão e o leito ao estrangeiro de índio-de-negro deste país. Andar sem ser visto, falar sem ser ouvido, desprezado sem ser quisto; este é o destino de toda nossa gente, no mundo dos homens que detém o poder de comprar o sorriso de alguém. Não julgue irmão, que somos ouvidos sem ouvir, olhos sem ver e cabeças sem pensar, apenas fazemos tudo o que podemos que nos convém a viver, mesmo com todo sofrimento que a vida fez ser. Agora vá!”

Emanuel ainda assustado de não ter entendido que o tolo era ele, que não percebera que o real era muito complexo para ser apreciado de emoção e acesso; que certos conhecimentos são galgados por todos mesmo que fora de escola. Ao se levantar e olhar a escuridão pela porta aberta, se dispõe para Dorico, põe os olhos a molhar e se volta para o seu leito, sem falar.
Deste dia em diante, não falou nem pensou mais, para a escola não se pôs a ir e manteve seu ritmo como os demais.

Ricardo Alexandre B. Graça
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  1. Denise_UCB Said,

    O segundo conto… Nossa!!! “De comer e de deitar”!

    Fiquei triste! Poxa, Emanuel foi forçado a desistir de seus objetivos.

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